CICLO GRÁVIDO PUERPERAL

 

Kathleen de Araújo Lima Cardoso

Psicóloga Clínica, Sociopsicomotricista Ramain-Thiers em formação

 

Este trabalho tem por finalidade, calcada em teóricos como Winnicott, Freud e outros, focalizar o ciclo grávido puerperal como sendo um momento crítico na vida da mulher, sendo assim uma verdadeira encruzilhada em termos de saúde mental, onde a forma apresentada para superá-la poderá ser saudável ou doentia.

O ciclo grávido puerperal é um momento muito especial para a mulher, envolve seus aspectos biológicos, psicológicos e sociais e traz consigo um alto grau de ansiedade, que resulta das novas situações impostas pela condição de estar grávida.

Na impossibilidade de falarmos de todos os movimentos específicos de incremento desta ansiedade, focalizaremos somente a mulher grávida, apesar de sabermos que a família engravida, e selecionaremos alguns momentos importantes da gestação para esta nossa explanação.

Começaremos a partir de alguns aspectos psicológicos associados a esta fase, e para isso, buscaremos na psicanálise alguns de seus conceitos.

Freud em seu texto “Os instintos e suas vicissitudes”, pega de Bleuler o termo ambivalência, e nos fala de uma ambivalência emocional, isto é, uma oscilação entre os sentimentos de amor e ódio.

A partir do momento da percepção, consciente ou inconsciente, da gravidez inicia-se a formação da relação materno-filial, e é neste momento também que se instala a ambivalência afetiva, sentimento básico da gravidez que vai se manifestar sob diversas formas no ciclo grávido-puerperal.

Podemos afirmar que a gravidez possui várias características de uma situação de crise que faz parte do processo normal de desenvolvimento, onde crise pode ser definida como uma perturbação temporária de um estado de equilíbrio.

A perturbação do comportamento que normalmente se verifica, em situações de crise, não deve ser confundida com sintomas de doença mental, mas deve ser considerada como sinal de uma luta interna que busca o reajustamento da personalidade.

Winnicott nos fala de uma condição psicológica especial da mãe na gravidez, chamando-a de Preocupação Materna Primária. Afirma que esta condição só não é considerada patológica devido à gravidez, sendo, porém um estado organizado, comparando-o a um estado de retração, ou de dissociação, ou de fuga, ou a uma perturbação mais desenvolvida assim como um episódio esquizóide. E acrescenta que a mulher para entrar neste estado e recuperar-se dele precisa estar mentalmente saudável.

O ciclo grávido-puerperal envolve a necessidade de reestruturação e reajustamento em várias dimensões: em primeiro lugar, verifica-se, como na puberdade, mudança de identidade e uma nova definição de papéis – a mulher passa a se olhar e a ser olhada de uma maneira diferente.

Raquel Soifer considera a gravidez uma experiência essencialmente regressiva, tanto em seus aspectos negativos (ansiedade e sintomas) quanto em seus aspectos positivos (bem estar e proteção), onde predominam as características orais, hipersonia, voracidade, dependência, que indicam uma identificação básica da grávida com o feto. Esta identificação regressiva atingiria um clímax no próprio processo de parto, na medida em que a parturiente revive o trauma de seu próprio nascimento.

Normalmente, a sonolência surge como um dos primeiros sintomas da gravidez. A psicanálise acredita ser esse o inicio da regressão, isto e’, a percepção inconsciente das mudanças orgânicas e hormonais e a sensação de incógnita seria a origem da regressão. A percepção, consciente e inconsciente, não consegue definir a causa dessas mudanças e, diante do conflito a mulher opta por afastar os estímulos, tanto internos quanto externos, repousando.

Náuseas e vômitos também são comuns no inicio da gravidez, teorias populares relacionam estes sintomas à rejeição da gravidez, no entanto, alguns estudos demonstram a importância etiológica de outros fatores e não especificamente da rejeição.

A clinica psicanalítica chama a atenção para a coincidência desses sintomas com a ansiedade determinada pela incerteza da existência ou não da gravidez. A freqüência com que estes fenômenos, diante de um diagnostico preciso, cessam ou se abrandam nos permite afirmar que as náuseas e vômitos servem para evidenciar a gestação, ao mesmo tempo em que dão vazão à ansiedade causada pela incerteza.

As oscilações de humor, comuns desde o inicio da gestação, estão intimamente relacionadas com as alterações do metabolismo. É freqüente a mulher passar da depressão a euforia sem motivo aparente e parece também que estes estados de humor não estão necessariamente associados à atitude para com a gravidez, mulheres que predominantemente aceitam a gravidez podem passar por períodos depressivos e crises de choro e mulheres que predominantemente rejeitam a gravidez podem passar por períodos de grande euforia e bem estar.

A percepção dos movimentos fetais, que normalmente ocorrem a partir do quarto mês, ou mesmo antes, aos três meses e meio da gestação, nos levam a outra manifestação psíquica que pode apresentar-se nesta época da gravidez, a sensação de que o bebê dá pontapés, incomodando enormemente a gestante. Nesse caso, o mecanismo inconsciente é a projeção, à base da qual se transfere para o feto uma imagem terrível, identificada com ele. A criança é sentida, assim, como um ser perigoso, cujos movimentos bruscos, agressivos e sádicos ameaçam causar severo dano físico à mãe.

Tais distorções da percepção por negação ou projeção, com suas fantasias correlativas, exprimem um profundo estado de ansiedade comum a todas as gestantes, nesta fase. Em primeiro lugar a investigação dessa ansiedade localiza o temor ao filho em si, o qual, surge como um desconhecido. Junto a esse temor, acha-se o medo à responsabilidade assumida, responsabilidade que agora, diante do ventre desenvolvido, adquire características de fato concreto.

Este sentimento de responsabilidade se une à noção de dar a vida, o que, se levarmos em conta o processo genético, significa haver cedido parte da própria vida.

Assim, aparece manifestadamente no parto, e talvez pela primeira vez, o conceito da própria morte, ou seja, da vida com limites precisos. Essa ansiedade de estar cedendo a própria vida se condensa com o medo de morrer no parto.

Freud, em sua palestra “Nós e a morte” de 16 de fevereiro de 1915, fala ter aprendido com seus pacientes, que o ser humano não acredita na própria morte; deste aprendizado concluiu que no inconsciente não há representação da morte, ou seja, na estrutura psíquica, junto ao desejo, está a crença da imortalidade, passando a sustentar que a condição de mortal leva o sujeito a buscar no desejo sua imortalidade. Sexualidade e morte são as pulsões que constituem o homem.

Diante deste fato, segundo Freud, a angustia de morte, do desconhecido, não aparece a nível consciente, sendo reprimida. Juntamente com o mecanismo de negação encontramos o da projeção: a morte é a morte do outro.

Este conflito entre a morte negada e a morte como possibilidade surge assim como intensificador de ansiedade para a gestante.

Um dos temores mais universais da gravidez está associado às alterações do esquema corporal: o medo da irreversibilidade, a dificuldade de acreditar que as várias partes do corpo, assim como tem a capacidade de ampliar-se para fazer as adaptações necessárias no decorrer da gravidez e no parto, tem a mesma capacidade de voltar ao estado anterior à gravidez.

No nono mês surgem várias modificações fisiológicas: o feto tende a desenvolver-se mais rapidamente, ganhando peso e volume; as contrações fisiológicas acentuam-se; novamente o corpo deve mudar seus mecanismos de postura para manter a estabilidade. Tais modificações e a noção da proximidade do parto intensificam as ansiedades.

Em contraste com a gravidez, cuja evolução é lenta e permite que as diversas mudanças ocorram gradualmente, o parto é um processo abrupto que rapidamente introduz mudanças intensas.

Com o parto dá-se o primeiro passo decisivo dentro do contínuo simbiose-separação. Dois seres, anteriormente unidos, separam-se e uma das tarefas psicológica mais importante da gestante é sentir, desde a gravidez, o filho como um individuo singular, diferenciado dela, de forma que, no momento do parto, a separação física e a emocional se integrem. Quando esta diferenciação não é bem elaborada, o parto pode ser sentido como uma separação dolorosa, no qual a mulher perde uma parte de si mesma, e a relação materno-filial fica perturbada, na medida em que a mãe não consegue perceber as características particulares do seu bebê porque o considera como uma projeção ou extensão de si própria.

As ansiedades básicas da situação, na parturiente, estruturam-se sobre uma armação, que é a reativação da angustia do nascimento. Tais ansiedades são: de perda, de esvaziamento, de castração, de castigo pela sexualidade e de defrontação com um desconhecido, o filho. A angústia traumática é de natureza desintegradora e catastrófica; a ansiedade de esvaziamento e a de perda têm caráter depressivo; o temor ao castigo, a ansiedade de castração e o medo ao desconhecido prendem-se a uma raiz paranóide. Seu interjogo produz o estado de confusão, com as sensações concomitantes de estranheza, despersonalização e perda de identidade.

Diante deste quadro psicológico da parturiente, podemos inferir como será a vivência do puerpério, essa situação de delimitação entre o perdido – a gravidez – e o adquirido – o filho. Também de delimitação entre devaneio, fantasia inconsciente e realidade. Tanto no que se refere ao modo pelo qual iria ocorrer o parto, como em relação à criança em si mesma e à reação ambiental. 

Como se compreende, esse processo lento e gradual dura muitos meses, culminando quando a criança começa a dar os primeiros passos. Na verdade, jamais termina, uma vez que todo o progresso do filho é sentido novamente como um parto, é o “cordão umbilical” psíquico, que se afina, mas não se parte jamais.

Em conseqüência, os primeiros seis meses após o parto definem, em boa medida, o futuro mental da mulher, assim como determinam e selam a relação com o filho, a família e a sociedade.

Como resultado de um mau puerpério podemos encontrar as manifestações de depressão puerperal exacerbadas, conhecida comumente como psicose puerperal. Neste quadro a mulher torna-se ensimesmada, afastada, triste, rejeita o filho, em geral declara não poder vê-lo, sofre de insônia, inapetência, descuida-se da própria aparência e higiene. Muitas vezes faz referencia a alucinações, geralmente auditivas, ou exprime idéias delirantes. Tal estado pode remitir por si mesmo, ao cabo de alguns dias, semanas ou meses.Na remissão é muito importante a capacidade dos familiares para tolerar, absorver e modificar a ansiedade que determina o quadro. 

Diante do exposto, concluímos que a maternidade deixa de ser um benefício da mulher, passando a ser uma conquista, uma luta contra o desconhecido que precisa ser descoberto.

A inserção de um acompanhamento psicológico, torna-se imprescindível neste momento. Os psicólogos devem conscientizar-se de sua importância neste trabalho profilático, da mesma maneira como os médicos precisam acordar para o lado psicológico da gestante. Precisamos abrir uma escuta livre de preconceitos e de valores morais, onde mulheres possam falar abertamente de suas alegrias e também de suas rejeições relacionadas à gestação, de seus ódios e de seus amores voltados ao bebê, seus medos com relação à transformação do próprio corpo, dos sentimentos de insatisfação durante a amamentação e etc., sem que fiquem sujeitas à execração pública. E que elas possam saber que não são as únicas a passarem por este período de desequilíbrio emocional, inevitável e necessário, segundo Winnicott, para o bom desenvolvimento das gestantes e de seus bebês.

 


 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1
 

FREUD, Sigmund, Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Volume XIV, Rio de Janeiro; Imago, 1999.

2

MALDONADO, Maria Tereza P., Psicologia da Gravidez, Petrópolis; Vozes, 1976.

3
 

MANNONI, Maud, O nomeável e o inominável – A última palavra da vida, Rio de Janeiro; Jorge Zahar, 1995.

4
 
SOIFER, Raquel, Psicologia da gravidez, parto e puerpério, Porto Alegre; Artes Médicas, 1992.
5
 
WINNICOTT, D. W., Textos Selecionados da Pediatria à Psicanálise, Rio de Janeiro; Francisco Alves, 1978.