A METAPSICOLOGIA FREUDIANA E A SOCIOPSICOMOTRICIDADE:

 A RELAÇÃO ENTRE O SUJEITO
E O AFETO

 

 Ama Lúcia Mandacaru Lobo
 

Trabalho apresentado em forma de palestra, proferida no II Encontro Nacional Ramain-Thiers, em outubro de 1998, no Rio de Janeiro

 



 

INTRODUÇÃO 

A psicanálise desenvolveu-se a partir de um duplo interesse de Freud: o desenvolvimento do trabalho clínico e a construção teórica desta linha de trabalho.  O empenho neste duplo viés de interesse terminou por delimitar duas áreas que, até hoje permanecem como componentes essenciais da prática clínica psicanalítica, apesar de aparentemente estruturarem-se com um certo distanciamento uma da outra. Na verdade, uma área justifica a outra, dentro de um movimento dialético constante. A clínica  e a teoria não compartilham do mesmo espaço e referem-se a objetos diferentes de trabalho: na clínica, o sujeito é o objeto e na teoria são as idéias.

Dentro da história da psicanálise, a necessidade da estruturação teórica da técnica psicanalítica deriva também de uma dupla vertente: 1) a da necessidade de conter, através da racionalidade, a amplitude dos fenômenos psíquicos observados e, 2) a da necessidade de justificar cientificamente a prática psicanalítica, a fim de que esta fosse aceita pela comunidade médica da época.

Esta estruturação teórica foi construída ao longo da trajetória histórica de desenvolvimento da psicanálise e constitui-se, tal como Garcia-Roza define, de "hipóteses teóricas" criadas por Freud acerca de suas próprias descobertas e observações, às quais denomina-se Metapsicologia. Freud define Metapsicologia como "um conjunto de pressupostos teóricos sobre os quais poderão ser assentes as bases de um sistema psicanalítico". E, confirmando a cumplicidade existente entre a teoria e a técnica, Freud considerava ser "impossível  definir saúde, exceto em termos metapsicológicos".  A metapsicologia é, segundo a teoria freudiana, um conjunto de pressupostos teóricos que possibilitam compreender o processo de funcionamento psíquico de acordo com três referenciais: 1) Dinâmico; 2) Econômico e, 3) Tópico. Tendo a Metapsicologia esta função - a de levar a compreensão do modo de funcionamento do aparato psíquico - conclui-se que o estudo e apreensão deste grupo de conceitos é essencial à prática clínica psicanalítica.

Por apresentar uma base de trabalho desenvolvida através das duas vertentes citadas, que derivam uma da outra mas que, por outro lado,  possuem existência própria, a psicanálise termina por possibilitar que outros métodos articulem sua técnica à teoria psicanalítica freudiana.

Ramain-Thiers, como se sabe, é uma técnica psicoterapêutica que utiliza a psicomotricidade como instrumento técnico de trabalho e, utiliza a psicanálise como base teórica para compreensão da movimentação psíquica desencadeada. Desse modo, a cientificidade da Sociopsicomotricidade Ramain-Thiers, enquanto Método psicoterapêutico, encontra-se intimamente relacionada ao trabalho de pesquisa e análise das relações que se estabelecem entre a clínica sociopsicomotora e a teoria psicanalítica.

Conseqüentemente, estender a compreensão metapsicológica do universo psíquico à Sociopsicomotricidade torna-se essencial para a composição da estrutura teórica desta última. Assim, o objetivo deste trabalho é traçar as relações existentes entre a Metapsicologia e a Sociopsicomotricidade, estendendo esta análise para o contexto dos fenômenos clínicos, associando estes ao afeto enquanto intensidade de energia psíquica.

Para tanto, este trabalho está dividido em três partes. Na primeira, estabelece-se o campo metapsicológico freudiano, ou seja, apresenta-se os conceitos teóricos psicanalíticos - a metapsicologia - a fim de criar as referências necessárias para a análise e correspondência destes com a Sociopsicomotricidade. Na segunda parte, faz-se a correlação entre estes conceitos e a Sociopsicomotricidade, destacando-se as áreas de Trabalho Corporal e a de Psicomotricidade Diferenciada. A terceira e última parte dedica-se à conclusão do trabalho, dando ênfase à função da palavra e à criatividade.

                  

CAPÍTULO I

A METAPSICOLOGIA FREUDIANA

 

Freud apresenta formalmente o termo Metapsicologia em um artigo escrito por ele e publicado em 1915, denominado "O Inconsciente". Porém, sabe-se que a construção Metapsicológica foi feita ao longo de toda sua obra.

Há dois percursos que caracterizam a sua obra, como já foi citado anteriormente: 1) o clínico, no qual estrutura apontamentos técnicos, casos clínicos e exemplificações extraídos do cotidiano, através de sua observação clínica apurada e de sua sensibilidade e, 2) o teórico, cuja estrutura é construída afastada da clínica, compondo-se por pressupostos teóricos e hipóteses referenciais. Todas as referências extraídas da clínica são acrescidas dos desdobramentos próprios decorrentes do desenvolvimentos das idéias, do pensar. A teoria vai, portanto, para além da clínica.

Metapsicologia significa, exatamente, o conhecimento a seguir da alma; a revelação que vem depois da alma . Logos, cuja tradução é razão, conhecimento, pode também ser traduzido por revelação.  Meta, que significa depois de, a seguir de, possui também o sentido de sucessão.  Psiquê, cujo significado é alma, espírito, pode ser entendida como "sopro de vida". Freud faz  algumas citações a respeito do campo Metapsicológico:

"Metapsicologia é a psicologia que leva aos bastidores da consciência" (Carta 84, de Freud a Fliess);  

"Quando logramos descrever um processo psíquico em seus aspectos dinâmico, topográfico e econômico, devemos falar dele como uma apresentação metapsicológica" (Freud, S. O Inconsciente, 1915);   

"Transformar a Metafísica em Metapsicologia" (Psicopatologia da vida cotidiana)

Na Metapsicologia encontra-se toda a construção da teoria freudiana, bem como o modelo de funcionamento psíquico e os objetos necessários ao seu funcionamento, ou seja, os objetos metapsicológicos. Por tratar, como já foi visto,  daquilo que está além da alma humana através da razão, o objeto central de estudo metapsicológico é altamente subjetivo. A Metapsicologia, enquanto construção teórica, estabelece um espaço psíquico que é composto e analisado através de "idéias-conceito", como bem define Assoun em seu livro Metapsicologia Freudiana.

Estas "idéias-conceito" tem como objetivo apresentar o conjunto teórico que estabelece o funcionamento psíquico humano, incluindo as possibilidades de deslocamento, de transformação e de modificação do sistema psíquico, uma vez que sua subjetividade impede uma precisão funcional. Este quadro geral de funcionamento somente pode ser denominado de Metapsicologia quando aborda, essencialmente, três aspectos: o dinâmico, o econômico e o tópico.

 

O aspecto dinâmico

A psicanálise delega à pulsão (Trieb) o caráter dinâmico do funcionamento psíquico humano. Pulsão é uma "idéia-conceito" fundamental da Metapsicologia e pode ser compreendida como força ou energia psíquica constante, cuja origem é somática  e cuja tendência é a de se satisfazer por meio de um objeto, através da ligação de uma pulsão à outra, da descarga da energia pulsional ou ainda, de sua ligação a uma representação. Segundo Freud, o aparelho psíquico recebe da sua exterioridade (tanto o mundo externo quanto o próprio corpo do sujeito, ou seja, tudo que vem de fora do psiquismo) uma grande quantidade de energia dispersa. O aparelho psíquico tenta, então, ordenar estas intensidades, controlá-las, contê-las, a fim de que não promovam um excesso de tensão interna. Daí a sua tendência ser sempre a de buscar o alívio de tensão como forma de satisfação psíquica. Mas a exterioridade pulsional só é observável através de suas representações.

"Se identificarmos o aparato psíquico como o lugar da ordem, ordem das representações, ordem dos significantes, ordem resultante do domínio do princípio do prazer e do princípio de realidade, então as pulsões ocupariam o lugar do Caos, pura dispersão de intensidades pulsionais. Claro está que estas duas regiões não podem ser pensadas como independentes uma da outra. Não há pulsão sem representação, assim como não há representação sem pulsão."

A "idéia-conceito" de pulsão surge na obra de Freud associada à sexualidade e trata-se portanto, de uma pulsão sexual que, ao longo do desenvolvimento teórico, desdobrou-se na pulsão de auto-conservação (ligada à consevação da vida do indivíduo) e na pulsão do eu (que tem o eu como objeto). Muitas vezes estas pulsões são confundidas e erroneamente utilizadas como sinônimos.

As pulsões, enquanto forças dinâmicas, são compostas de afeto (affekt), que seria a própria intensidade da pulsão e de representações. As pulsões possuem algumas qualidades:

a) uma pressão constante (drang), que seria a própria essência propulsora da pulsão;

b) um alvo, uma meta, que seria a satisfação alcançada somente com o    cancelamento da estimulação;

c) um objeto, que é aquilo que permite o  alcance do alvo e,

d) uma fonte, que seria um estímulo corporal, uma fonte somática. Não importa muito aqui a ordem ou a localização. O que importa é que a estimulação seja   originada em um processo somático (o corpo como um todo ou partes do corpo).

Estas quatro qualidades pulsionais estimulam o psiquismo, levando-o a trabalhar. O fato de buscarem uma satisfação e de se movimentarem energeticamente em função de um alvo e com isto levarem o psiquismo a funcionar, nos aproxima da suposição de serem as pulsões uma energia externa ao psiquismo. Compreende-se assim a definição apresentada por Freud no artigo "As pulsões e suas vicissitudes" (1915), na qual afirma que "a pulsão é um conceito cuja origem situa-se entre o psíquico e o somático". Situando-se fora do campo psíquico ou, beirando a fronteira entre o psiquismo e o corpo,  conclui-se que as pulsões não devem, portanto, submeter-se às leis que regem o funcionamento psíquico. São intensidades anárquicas, alheias, irrompem no psiquismo através das representações.

"Uma pulsão nunca pode passar a ser objeto de consciência; somente pode sê-lo a representação que é seu representante... e que tampouco no interior do inconsciente pode estar representada a não ser pela representação."

As vicissitudes das pulsões, ou seja, os destinos aos quais elas seguem, são, ao mesmo tempo, a defesa do psiquismo contra esta intensidade pulsional. Há quatro caminhos que as pulsões podem percorrer para alcançar a consciência: 1) a transformação no contrário; 2) o retorno para a própria pessoa; 3) o recalque e, 4) a sublimação. A transformação no contrário e o retorno para a própria pessoa são mecanismos  que apresentam processos coincidentes em um determinado aspecto: envolvem o outro em sua transformação. O recalque mereceu de Freud um trabalho específico, apresentado em um artigo publicado em 1915, devido à importante posição que este mecanismo ocupa na estruturação do psiquismo. Sabe-se que Freud escreveu um artigo sobre a sublimação, mas este nunca foi publicado e tampouco encontrado em seus escritos. É através da sublimação que o sujeito consegue voltar-se para uma outra meta, distante da satisfação erótica. É importante sublinhar que, apesar do desvio, há a satisfação. Os destinos da pulsão nos levam a pensar no caráter plástico, maleável e permeável da pulsão.

Uma das hipóteses mais interessantes formuladas por Freud no que diz respeito à teoria pulsional é a de que esta necessidade de satisfação deriva de um estado de satisfação já experimentado pelo sujeito psíquico nos primórdios de seu desenvolvimento e que foi perdido. É a satisfação da retomada deste "algo", desta coisa (das ding) que a pulsão busca constantemente alcançar. Mas este alvo, que provocaria a plenitude absoluta, é inatingível. E é por esta razão que o objeto da pulsão é variável, pois necessita de algo em que se ligue à representação deste "algo".

No período final de sua produção teórica, Freud introduz o conceito de pulsão de morte, ou de destruição. Este conceito, devido à sua inusitada atuação no psiquismo, leva Freud a necessariamente reformular a teoria das pulsões, distinguindo apenas dois grandes grupos de pulsões: a pulsão de vida, ou Eros, que abarcaria todas as outras (pulsão sexual, pulsão de auto-conservação e pulsão do eu), passa a ser a pulsão com a qual a pulsão de morte irá conviver; mantendo-se sempre misturadas uma à outra. Somente posteriormente, no artigo intitulado "O mal estar na cultura" (1930) é que Freud define a pulsão de morte como autônoma e originária do ser.

No psiquismo dois grandes sistemas de funcionamento: o Inconsciente e, o Pré-Consciente/Consciente. Ao Consciente Freud atribui a função de percepção consciente e, ao Inconsciente pertenceriam os conteúdos psíquicos recalcados.

O sistema Inconsciente seria regido pelo processo primário, no qual a energia psíquica de deslocamento de uma representação pulsional para outra seria livre, desconectada, funcionando sob os auspícios do Princípio do Prazer. Já os sistemas Pré-consciente/Consciente seriam regidos pelo processo secundário, no qual a energia pulsional estaria ligada, conectada e vinculada ao Princípio da Realidade.

Esta topografia nos leva à percepção da constituição de um aparato psíquico cujo fim seria o de ordenação de idéias, conteúdos de idéias e representantes simbólicos destas, bem como de uma ordem de sucessão e outra de simultaneidade (uma vez que uma idéia poderia estar presente nos dois sistemas ao mesmo tempo).

A própria experiência clínica de Freud demonstrou não ser esta teoria muito verdadeira, ou melhor dizendo, esta mostrou-se incompleta. A percepção da existência de relações intra e inter-sistêmicas tornaram esta topografia ineficaz ao tentar delimitar os componentes constituintes da dinâmica psíquica em espaços fixos, quando na verdade, observava-se clinicamente que estes espaços eram permeáveis. Porém, foi a ineficácia deste modelo teórico que levou Freud a esmiuçar ainda mais as possibilidades de composição topográfica do psiquismo, chegando à teoria estrutural: Id, Ego e Superego, junto aos quais o Inconsciente e o Pré-consciente caminham paralelamente.

"Deparamo-nos com algo no próprio ego que também é inconsciente... a conseqüência desta descoberta é que acabamos cercados de intermináveis dificuldades e obscuridades se insistirmos em nossas formas habituais de expressão e tentarmos, por exemplo, derivar as neuroses de um conflito entre o consciente e o inconsciente. Teremos que substituir esta antítese por outra, aduzida da nossa compreensão das condições estruturais da mente."

 

Aspecto Econômico 

Este aspecto relaciona-se diretamente aos movimentos de regulação da quantidade de energia utilizada nos processos mentais através do princípio do prazer-desprazer, que também ampliam-se com a concepção dos aspectos estruturais - id, ego e superego.

O aspecto econômico trata do dispêndio de energia psíquica, das catexias da libido, fator essencial para a compreensão do recalque. Para que uma representação pulsional possa manter-se recalcada, há o dispêndio de força. A esta força dá-se o nome de contra-pressão, ou contra-catexia. O objetivo econômico da energia psíquica é o de dispender a menor quantidade de energia possível na manutenção de suas conteúdos recalcados.

Esta forma de manutenção do recalque -a contra-pressão- leva à compreensão de diferentes formas de desequilíbrio econômico no psiquismo. O conceito de trauma, por exemplo, refere-se a uma experiência cuja repercussão psíquica leva necessariamente à alteração do modo da energia oerar no psiquismo, devido à enorme carga de intensidade pulsional que recebe. Esta alteração é derivada da impossibilidade de absorção da experiência traumática. A angústia e a ansiedade são também derivadas deste desequilíbrio energético. A angústia surge quando a pulsão, enquanto pura intensidade, não se vincula a nenhuma representação e não age por descarga motora, permanecendo aprisionada. A ansiedade deriva de experiências infantis cuja situação de excessiva estimulação da percepção leva a acumulação de energia, a qual necessita ser eliminada.

Exatamente por ser um aspecto que trata da comunicação entre o psiquismo e a realidade - da dosagem de energia, economicamente falando, dispensada aos objetos - pode ser amplamente utilizada em toda a teoria metapsicológica.

 

Aspecto Estrutural

A partir de 1920 Freud começa a trabalhar diretamente com a teoria estrutural do psiquismo, composta por três instâncias: o Id, que seria o pólo pulsional da personalidade; o Ego, que seria o mediador entre as exigências do Id e as possibilidades da realidade e, o Superego, que seria a instância crítica, julgadora. A introdução da teoria estrutural é de extrema importância dentro da composição teórica da Psicanálise, uma vez que aponta para a não delimitação do espaço inconsciente. Os conteúdos psíquicos inconscientes permeiam as três instâncias, assim como partes destas instâncias podem permanecer insconscientes. Estas três instâncias se entrelaçam através de um campo intra-subjetivo de atuação, dentro ainda da perspectiva metapsicológica.

O Ego é um conceito bastante utilizado dentro da obra de Freud e foi muito citado antes de se tornar um elemento estrutural. Inicialmente era utilizado de maneira pouco especificada, para designar a personalidade como um todo. Posteriormente, com o surgimento dos conceitos de ambivalência, identificação, narcisismo, o Ego constituiu-se como um conceito mais amplo: pode ser considerado como estrutura da personalidade; como objeto de amor para o próprio sujeito ou, como instância psíquica.

O Id é a expressão psíquica das pulsões. Seu conteúdo é inconsciente, em parte herdado e inato e em parte recalcado e adquirido. Como reservatório pulsional, o Id não "seleciona" pulsões. O conflito é, portanto, inerente à condição psíquica humana primordial. Este conflito básico estrutural estende-se ao Ego e ao Superego, pois não havendo mais a separação clara entre as instâncias, o Id encontra-se misturado aos conteúdos psíquicos de modo geral. O Id é o começo de tudo, é o Caos primordial, pura energia pulsional, cujas pulsões que o compõe tendem a subsistir em contradição, sem que se suprimam ou se subtraiam. Parte do Id modifica-se paulatinamente por atuação direta do mundo exterior (percepção e consciência), promovendo uma diferenciação progressiva que leva à constituição das diferentes instâncias.

O Superego é o juiz e censor do Ego. Constitui-se, segundo Freud, pela interiorização das imagos parentais, derivando desta instância todos os preceitos de moralidade e eticidade. Da mesma maneira que o Ego, partes do Superego podem funcionar de maneira inconsciente, bem como partes de seu conteúdo mantém-se no Incosnciente. Para Freud o Superego é o herdeiro do Complexo de Édipo. A interdição ao incesto leva a criança a renunciar ao desejo de possuir os pais, transformando a interdição em identificação. Mas esta identificação, tal como explicitamente apresentada por Freud, "... não se forma à imagem dos pais, mas sim à imagem do Superego deles; enche-se do mesmo conteúdo, torna-se o representante da tradição, de todos os juízos de valor que subsistem assim através de gerações."

 

O Inconsciente e o Recalque

O termo Inconsciente, enquanto objeto metapsicológico, refere-se sempre a duas possibilidades de compreensão: o Incosnciente enquanto sistema, como já foi comentado (Inconsciente, Pré-consciente e Consciente) e enquanto descrição qualitativa, a respeito de algo que se encontra insconsciente. Mas é importante ressaltar que tanto uma como a outra forma tratam de conteúdos psíquicos inacessíveis à consciência, mantendo-se sempre ligados a representantes das representações pulsionais.

O Inconsciente é fundado pela ação do Recalque e termina por manter-se identificado a ele. Enquanto sistema, Freud identifica o Inconsciente com o conteúdo recalcado, o que leva a diretamente envolver o Inconsciente com as pulsões. Em outras palavras, o recalcamento possui, a princípio, a precisão criteriosa de solucionar o conflito entre os sistemas Inconsciente e Pré-consciente/Consciente: o desejo inconsciente procura sua realização através do Pré-consciente/Consciente que, por sua vez, defende-se do caráter ameaçador de desejo recalcado. Segundo Freud, "O segundo sistema (Pcs/Cs) só pode investir uma representação se está em consições de inibir o desenvolvimento do desprazer dela decorrente". Esta seria, para Freud, "a chave de toda a teoria do recalcamento". 

Em 1915, no artigo intitulado "O Recalque" e em "O Inconsciente", o recalque passa a ter a função definida de rechaçar algo da consciência e mantê-lo afastado dela. Esta definição não expressa claramente a profundidade e a extensão do conceito: o recalque promove um cisão psíquica, quando impede o acesso da representação à consciência, sem com isto eliminá-la. A constituição de duas áreas psíquicas diferentes resulta desta clivagem operada pelo recalque.O Recalque Originário é aquele que funda o Inconsciente e, portanto, funda o psiquismo enquanto aparelho de funcionamento psíquico, operando a divisão entre Inconsciente e Pré-consciente e Consciente. A partir deste Recalque Originário é que a ação de recalcamento adquire a função de mecanismo constante. O Recalque Originário seria a condição necessária a todo recalcamento e constitui-se pela primeira inscrição psíquica inconsciente feita pelo processo de negação e fixação de uma pulsão a uma representação e a seu conseqüente estabelecimento em um local inacessível à consciência. Fixa-se a excitação pulsional a uma representação e institui-se, neste momento, um espaço que funciona como se fosse o Inconsciente. Estabelece-se, portanto, uma demarcação que será posteriormente a limitação do espaço psíquico entre Inconsciente e Pré-consciente/Consciente. A partir da inscrição, fixação e recalcamento originários, inicia-se o processo de recalcamento secundário: há o espaço psíquico necessário para atrair os elementos para um recalque posterior. O recalque, daí por diante, se efetua sobre os derivados psíquicos do Recalque Originário. Porém, somente a representação do representante pulsional cumpre esta sina, não o afeto inerente a ela (intensidade pulsional). O afeto, daqui por diante compreendido como intensidade pulsional,  apresenta destinos diferentes dos da representação: ele pode ser suprimido, deslocado ou transformado.

Voltamos então ao início desta configuração metapsicológica: o afeto, como intensidade da pulsão, expressa-se no sujeito operador da Metapsicologia. Irrompe, segundo Freud, como neurose de angústia, histeria de conversão ou neurose obsessiva.

É importante resaltar que fixação, inscrição e Recalque Originário não são sinônimos, mas correspondem, cada um à sua maneira, ao mesmo momento de inauguração do inconsciente.    O retorno do recalcado faz parte do processo de funcionamento psíquico como um todo. Uma vez que as representações das representações da pulsão não são eliminadas mas mantidas no psiquismo, elas tendem a buscar um caminho para ter acesso à consciência, lutam por isso. São tantos os derivados possíveis de uma representação que o retorno do recalcado é inevitável. Em 1939, em um de seus últimos trabalhos, denominado "Moisés e o Monoteísmo", Freud apresenta suas considerações acerca deste ponto:

"1) se há um enfraquecimento do contra-investimento em decorrência de algum processo patológico que afeta o eu, ou por uma mudança na distribuição do investimento no interior do eu como ocorre no sonho; 2) quando a articulação da pulsão com o recalcado recebe um reforço especial (como ocorre na puberdade, por exemplo); 3) quando, em experiências recentes, certas impressões ou vivências semelhantes ao recalcado têm o poder de despertá-lo. Seja qual for, porém, a condição que possibilita o retorno do rrecalcado, este nunca se dá em sua forma original e sem conflito. O material recalcado é invariavelmente submetido à deformação por exigência da censura, mesmo quando as defesas do eu são diminuídas, como no caso do sono."

 

CAPÍTULO II

A METAPSICOLOGIA FREUDIANA E A SOCIOPSICOMOTRICIDADE

 

Dentro dos estudos apresentados relacionados à Metapsicologia, pode-se notar que o psiquismo e o corpo são a base da exploração metapsicológica. O corpo é o agente portador do afeto. Caberá aqui, portanto, entrelaçar e analisar a Sociopsicomotricidade à luz dos referenciais metapsicológicos apresentados, partindo do pressuposto teórico-clínico psicanalítico de que as "idéias-conceito" devem, por um lado, apoiar a existência dos fenômenos clínicos e explicar seus conteúdos. É neste sentido que esta explanação pretende ser feita, abrangendo as duas grandes áreas que compõem a Sociopsicomotricidade: a do Trabalho Corporal e a da Psicomotricidade Diferenciada.

 

Trabalho Corporal

O Trabalho Corporal em Ramain-Thiers é uma das vigas mestras de seu Método. As técnicas de sensibilização e percepção corporal objetivam levar o sujeito a reconhecer sua imagem corporal e a reviver momentos conflitivos de seu desenvolvimento, entendendo-os aqui como momentos geradores de lacunas psíquicas.

Segundo Thiers, S. o objetivo geral do Trabalho Corporal é despertar "a atenção interiorizada e tornar o indivíduo uno nas relações entre o seu mundo interno e a sociedade em que vive." A  "atencão interiorizada" , termo utilizado por Simonne Ramain, é definida como "um estado de energia desconhecida, difusa no organismo...". Esta "atenção interiorizada" leva à atenção desperta, a atenção atenta à realidade externa e interna, às percepções do sujeito. Pode-se supor que este tipo especial de atenção esteja intimamente relacionada ao afeto pulsional desprendido de representação, como energia pulsional deslocada, captada pelo organismo e pela percepção.

Alcançar o estado de "atenção interiorizada" é um objetivo que se encontra enlaçado com as vias de comunicação que se estabelecem entre o psiquismo e a realidade, ou seja, aos aspectos econômicos da Metapsicologia. Buscar o estado de "atenção interiorizada" é reconhecer o todo energético que se situa entre o psiquismo e o corpo.

"Tornar o indivíduo uno nas relações entre o seu mundo interno e a sociedade em que vive" significa que o sujeito deve assegurar e reconhecer os limites de sua unidade corporal. Este "sujeito corporal" deve então ser mais profundamente analisado dentro da estrutura metapsicológica.

Dentro da Metapsicologia freudiana, o conceito de corpo, ou de corporalidade, liga-se inicialmente à idéia do corpo como sintoma. O sintoma corporal pode ser compreendido como um "efeito no corpo da linguagem inconsciente". Neste caso, o deslocamento da energia pulsional traduz-se em um efeito corporal, cuja patologia acompanha a predisposição constitucional daquele sujeito corporal. É através do corpo que representações recalcadas se expressam: a histeria, por exemplo, utiliza o corpo como receptáculo de simbolização dos conflitos histéricos.

Porém, outro tipo de relação, mais sutil e menos explícita, pode ser feita entre o corpo e o psiquismo. Partindo da idéia freudiana na qual as pulsões promovem vida ao psiquismo, o corpo pode ser compreendido como a sua oposta contrapartida: as pulsões encontram-se no soma. O corpo é outro lado do princípio fundador do ser psíquico; é a própria materialidade do psiquismo; é a representação concreta do limite existente entre a subjetividade e a objetividade.

Em toda sua obra, Freud sempre cita o corpo em sua estreita relação com o psíquico. Mas, haverá um corpo em si, desvinculado da realidade externa, do ambiente  e da constituição psíquica do sujeito do corpo?

A crença na existência do Inconsciente enquanto objeto metafórico, bem como das pulsões e do afeto inerente a elas, assegura-nos da plasticidade corporal: o significado do corpo é peculiar e singular a cada um. Sendo o Inconsciente e as pulsões os elementos constituintes da essência do significado do corpo, este recebe inúmeros significados, tantos quantos puderem surgir dos desdobramentos das marcas do Recalque Originário. É partindo desta premissa que se torna possível compreender a diferença existente entre Imagem Corporal e Esquema Corporal.

A Imagem Corporal é uma construção psíquica do corpo que se encontra na esfera simbólica de representação; é eminentemente inconsciente e atualiza, através das imagens psíquicas corporais, os conflitos existentes entre o Id, Ego e Superego. O Esquema Corporal é a própria realidade, limitada enquanto tal, que leva ao reconhecimento do corpo enquanto objeto anatômico e funcional; sustentando, portanto, a possibilidade de construção da Imagem Corporal. Assim, tornar o indivíduo uno, envolve levá-lo a reconhecer o seu próprio corpo como esquema e como imagem corporal.

Thiers apresenta também os objetivos específicos a serem alcançados com o Trabalho Corporal: "liberar recalques corporais; liberar a repressão sexual; despertar a sensibilidade; promover a integração mente-consciência corporal-afetos-social; favorecer a formação do esquema e da imagem corporal; facilitar a inter-relação do indivíduo nos grupos e, fortalecer o nível da realidade e a estrutura egóica". Não caberá aqui explicitarmos cada um destes objetivos mas, vale notar que todos se associam aos elementos metapsicológicos apontados neste trabalho: energia pulsional, recalque, sensibilidade, afeto, imagem e esquema corporal, realidade e Ego.

Podemos nos teoricamente a razão pela qual o Trabalho Corporal Ramain-Thiers tem possibilidade de alcançar os objetivos aos quais se propõe.

No artigo "O Eu e o Isso", escrito em 1923,  Freud diz que "o eu é, antes de tudo, um eu corporal". O Eu e o corpo se compõem dialeticamente: o Eu é estruturado como corpo e o corpo está na base da concepção do Eu. Mas Freud também sinaliza que o corpo e principalmente sua superfície, é "um lugar de onde podem provir, simultaneamente, percepções externas e internas". Este "eu-corpo" é, então, a unidade que direciona a relação que se estabelece entre o que está dentro e o que está fora dele. A atuação corporal de um sujeito deve refletir estas duas vias de comunicação presentes no "eu-corpo" freudiano.

O ato e o movimento diferenciam-se. O ato corporal possui representação, ou seja, traz em si os conteúdos internos do sujeito, aliados a seu modo de relacionar-se com a exterioridade. O movimento abrange a esfera da autonomia da ação enquanto percepção e funcionamento do esquema corporal.

 Ao associar o ato corporal à interioridade, também o associamos às pulsões e ao Inconsciente. Vincula-se ao ato a autonomia da vontade pulsional expressa nas representações insconcientes que alcançam a superfície corporal. O sentido da pulsão é o sentido inconsciente do corpo.

Assoun propõe a Metapsicologia dos Atos. Segundo este autor, no início do desenvolvimento humano, juntamente com os desdobramentos e recalques pulsionais psíquicos, não havia ato, mas sim uma ação não específica, derivada do uso do corpo como meio de descarga energética para alcançar uma possível solução econômica do psiquismo. Isto nos leva a pensar que há uma memória pulsional arcaica que também se inscreve no corpo.

O desenvolvimento da percepção do corpo do sujeito como continente do Eu se dá através da presença do outro. É pelo estabelecimento da relação "nós-corpo" que a ação não direcionada pode transformar-se em ato: o prazer e o desprazer são expressos corporalmente pelo bebê e paulatinamente adequados à realidade pelo corpo da mãe.

Alcançamos aqui as bases para o desenvolvimento teórico do Trabalho Corporal Ramain-Thiers. A maternagem, o despertar das sensações corporais, os limites do corpo, a descoberta do corpo erógeno, que são aspectos desenvolvidos no Trabalho Corporal,  associam-se diretamente a este "eu-corpo" vivido e constituído pelo sujeito nos primórdios de seu desenvolvimento. Podemos acrescentar aqui que o Trabalho Corporal atualizaria, através do ato corporal, os conteúdos psíquico-corporais arcaicos, levando o sujeito a defrontar-se, literalmente, com as representações das marcas pulsionais em seu corpo.

Este outro, que vem compor o "nós-corpo", é reencontrado no Trabalho Corporal através de três vias de acesso: pelo terapeuta, pelo material intermediário e pelo grupo terapêutico.

A figura do Terapeuta é a expressão real da representação do outro internalizado no sujeito. O sujeito tem possibilidades de conter os próprios movimentos através do direcionamento transmitido pelo terapeuta em relação ao uso dos materiais ou ao tipo de movimentação corporal a ser feita. A voz e a palavra levam o sujeito a retomar a sensação do "nós-corpo": é o outro que o contém.

Os materiais intermediários - as bolas, as fitas, os tecidos, os arcos, os bastões, as esponjas etc - utilizados para efetuar este contato com o eu-corporal, podem também ser compreendidos metaforicamente como representantes deste outro. Os objetos são trabalhados como extensão da supefície corporal e também como representantes dos objetos interalizados pelo sujeito. A estimulação corporal liga-se à representação pulsional. O espaço terapêutico destinado para a ação torna-se um espaço para a ação transferencial, ou seja, para a percepção e reconhecimento do ato com significação.

O grupo, representante simbólico da cultura, aponta para o momento de renúncia ao "eu-corpo".  O ser humano comprende e absorve o mundo externo através das mensagens corporais que recebe e, segundo Assoun, o corpo da pulsão deve, necessariamente, ser marcado pela renúncia:

"O retorno do sintoma atesta que essa renúncia se inscreve como um custo dorecalque. É nesse momento de refluxo que se opera a inscrição sobre o corpo. É assim que o corpo deve ler: como lugar de intrincamento e desintrincamento da pulsão e do desejo. É por isso que ele é opróprio lugar da regressão e o lugar de passagem à palavra e à cultura".

Dada a sutileza da retomada do corpo como elemento arcaico de composição do psiquismo humano - o corpo metapsicológico - dentro do espaço terapêutico, espera-se que o mesmo propicie e reconheça os desdobramentos corporais das intensidades pulsionais: a angústia, a ambivalência, as conversões histéricas, as regressões depressivas, as dissociações, bem como a possível integração do "eu-corpo" do sujeito em terapia. 

 

A Psicomotricidade Diferenciada e a Metapsicologia

A psicomotricidade é o instrumento psicoterapêutico utilizado em Ramain-Thiers. É um instrumento diferencial, ou seja, um instrumento que visa estabelecer diferença, distinção entre o sujeito e o objeto. Dentro desta finalidade psicoterapêutica, o objeto diferencial, entendido aqui como objeto metapsicológico, pode, muitas vezes, estar representado pelo próprio sujeito.

O tópico precedente esclareceu e pontuou o conceito de corpo na metapsicologia como: 1) continente do eu e instrumento de relação entre o eu e a realidade e, 2) agente possibilitador do ato que reflete a dinâmica interna inconsciente do sujeito.

A partir do ato corporal derivam inúmeras atividades psicomotoras desenvolvidas pelo ser humano: a imagem pictórica, a escultura, a dança, os sons. São produções concretas que podem ser compreendidas como representantes psíquicos de conteúdos arcaicos que expressam na realidade exterior os reflexos de seus conteúdos. Os desenhos e pinturas arqueológicas encontradas nas paredes de cavernas habitadas pelos homens da pré-história; as danças étnicas que representam determinadas conquistas ou necessidades de uma cultura; a elaboração de potes de barro ou madeira; a criação de adornos;  as imagens dos deuses; os gritos de guerra, de dor, de prazer, trazem as marcas da estrutura psíquica humana ao longo de seu desenvolvimento histórico. Representam formas arcaicas da movimentação da energia psíquica pulsional.

Todos estes elementos - imagens, desenhos, dança, música, sons - derivam do ato psíquico corporal, o que legitima e autoriza pensá-los como desdobramentos das representações inconscientes do homem = o corpo fala através dos atos cujo significado se reproduz em atividades concretas desenvolvidas no real.

Sendo estes elementos uma representação concreta dos conteúdos psíquicos, podemos pensar que a utilização do caminho inverso pode ser eficaz, uma vez que a passagem entre o ato corporal e o psíquismo é a mesma: os desenhos, as danças, as esculturas, os sons, podem ser utilizados e entendidos como possibilidades concretas de acesso ao inconsciente e à consequente exploração dos movimentos psíquicos de ambivalência, angústia, resistência, ansiedade.

Pela mesma razão, o modo como o sujeito atua sobre o objeto reflete o modo como ele atua em relação a seus próprios conflitos e representações. As produções derivadas do ato corporal explicitam e evocam fixações libidinais, promovendo a regressão psíquica, quando compreendidas dentro do contexto psicoterapêutico.

Ao inserir as propostas de Psicomotricidade Diferenciada no corpo metapsicológico, nota-se que estas se dividem em dois grandes grupos que, por sua vez, relacionam-se a um aspecto básico e propulsor da energia psíquica: pulsão de vida e pulsão de morte.

Retomando as explanações efetuadas acerca das pulsões, sabemos que o desejo de satisfação é constante, ao mesmo tempo que impossível. Porém, consta como fantasia psíquica primária e básica alcançar a totalidade da satisfação pulsional. Cabe à pulsão de vida a responsabilidade por este desejo impossível. A intensidade das pulsões no psiquismo é variável; as pessoas diferenciam-se umas das outras também pela sua capacidade de lidar, com maior ou menor ansiedade, com a frustração e o contato com a realidade. Várias são as atividades psicomotoras que se relacionam diretamente com este movimento pulsional de busca da satisfação, envolvendo fantasias de continuidade, plenitude, totalidade, onipotência. As atividades de Cópia, Simetria, Caleidoscópio, Criatividade, dentre outras, encontram-se neste grupo devido a proporcionarem, através do ato corporal, o contato com os elementos que se vinculam à estrutura e às fantasias acima citadas. O requisito essencial para poder executar tais propostas é o de perceber o todo e tentar alcançá-lo através da reunião de suas partes, vivida corporalmente pela necessária e imprescindível passagem por etapas consecutivas de pequenos atos corporais: quadrado após quadrado, linha após linha, ponto após ponto.

Se há o aplacamento da angústia ou a intolerância à frustração; se há a possibilidade de execução completa ou não da atividade; se há a impossibilidade de conviver com a falha motora (ato falho?) marcada em Ramain-Thiers pelo uso das diferentes cores de lápis, estes são fatos concretos que expressam a dinâmica psíquica do sujeito que atua sobre o objeto, no caso, a atividade proposta e, na relação transferencial, o terapêuta.

Quanto às manifestações da pulsão de morte, sabe-se que ela é disruptiva, sinistra, destruidora por natureza e que surge muitas vezes entremeada à pulsão de vida. Outro grupo de atividades psicomotoras associam-se a este movimento pulsional de desorganização do todo: os quebra-cabeças, os recortes, as seqüências codificadas, o arame, dentre outros. Estas atividades promovem o contato do sujeito com seus próprios aspectos disruptivos, incluindo aqui suas fantasias de retaliação e destruição. Porém, é importante salientar que há a promoção do ato corporal que leva à associação com a pulsão de morte mas sua finalidade é a de levar o sujeito a visualizar ou a recompor o todo, dentro dos limites da realidade. Neste caso, as ansiedades persecutórias, as fobias, as conversões histéricas, o descontrole motor, fazem parte do quadro de expressões psíquicas corporais que ilustram este tipo de atividade.

 

CONCLUSÃO
 

 Para completar a análise Metapsicológica da Sociopsicomotricidade Ramain-Thiers é preciso ainda tratar da "Sócio", da inserção do sujeito na cultura. Neste trabalho, este momento social refere-se principalmente à etapa de Verbalização que também compõe o procedimento técnico psicoterapêutico do Método.

O interesse, agora voltado à palavra, direciona-se ao sentido da representação da palavra e ao sujeito que fala, o operador metapsicológico. Até agora foram analisadas as expressões de desejo como deslocamentos de representações pulsionais presentes na imagem, no desenho, no corpo e no ato corporal.  A palavra surge, então, como o sentido peculiar, repleto de simbolos culturais, que lhe é conferido ao expressar os desejo das representações pulsionais.

A Verbalização pode ocorrer, em Ramain-Thiers, como uma descarga involuntária de afeto (grunhidos, suspiros, reclamações sem sentido, risadas etc.); como descarga voluntária de afeto (o sujeito começa a falar de qualquer coisa que lhe venha à cabeça com o intuito inconsciente de aliviar o nível de angústia), ou ainda como associação direta e consciente que relacione os afetos, as sensações, as lembranças, às atividades psicomotoras executadas. De qualquer modo, por qualquer destas vias, a palavra, enquanto objeto metapsicológico, reserva para si o direito de representar a subjetividade.

Sabemos que através do Recalque Originário há a fixação da intensidade pulsional na representação. Neste momento inscreve-se e marca-se o lugar psíquico no qual seus conteúdos terão seu acesso à consciência negado. A partir de então, recalcam-se imagens com significado. Estas imagens transformam-se em signos acústicos e posteriormente transformam-se em signos de realidade, através da associação dos signos entre si. O objetivo desta associação é promover o significado das coisas representadas no psiquismo.

Este processo aumenta gradativamente, formando grupos de sistemas de signos, até conseguirem alcançar a palavra. Porém, as representações que se mantém recalcadas no Inconsciente não possuem uma palavra com a qual possam ser ditas. Um paradoxo se forma: sendo as palavras pronunciadas pelo sujeito a representação última das inúmeras associações de signos, que por sua vez derivam das primeiras inscrições de imagens com significados, pode-se supor que sempre há um significado subjetivo inerente à representação expressa pela palavra. É também, pois, através da subjetividade da palavra que o Inconsciente encontra uma via de acesso à consciência. Assim, alguns conteúdos inconscientes encontram palavras para serem representados.

É partindo desta prerrogativa que a Verbalização torna-se o momento de exteriorização das representações de afeto inconsciente. Se, por um lado, o afeto inconsciente pode vagar pelo corpo psíquico transformando-se em angústia, a palavra pode também representar a expressão sublimada presente no ato corporal da fala: a energia pulsional desvia-se para adquirir um significado cultural de ligação. É com base na palavra que o sujeito entra no mundo das idéias, das relações e da cultura.

O destino social do afeto pulsional encontra-se também associado à criatividade. O progresso da cultura, as inúmeras soluções encontradas pelo homem para facilitar ou enfrentar as dificuldades promovidas pela natureza, a cientificidade, o espaço virtual, a conquista do espaço, contrapõem-se às guerras, ao desmatamento excessivo, à fome e pobreza, à dor e ao sofrimento. Nos deparamos novamente com as pulsões de vida e de morte, refletidas na forma de organização e construção do mundo atual. Segundo Freud, se a pulsão promove e mantém a união entre as representações pulsionais, ela é pulsão de vida; se ela não faz uniões, as rompe, é a pulsão de morte. Uma é conjuntiva, promove Eros; a outra é disruptiva, disjuntiva, promove o Caos. A pulsão de vida atuaria junto à cultura, à formação da sociedade, da humanidade como um todo. A pulsão de morte é que seria o elemento impedidor desta homogeneidade erótica.  

Garcia-Roza, em seu livro "Introdução à Metapsicologia Freudiana" faz uma outra leitura a respeito da dinâmica das pulsões de vida e de morte, apresentando uma outra perpectiva de reflexão:

"Se entendermos o desejo como pura diferença, o projeto de Eros seria o da eliminação da diferença e, portanto, do desejo, numa indiferenciação final que é a humanidade. A pulsão de morte enquanto potência destrutiva (ou princípio disjuntivo) é o que impede a repetição do mesmo, isto é, a permanência das totalidades constituídas, provocando novas formas. Neste sentido, contrariamente à idéia de pulsão de morte como retorno às formas anteriores, temos a pulsão de morte concebida como potência criadora, posto que impõe novos começos ao invés de produzir o mesmo. A função conservadora estaria do lado de Eros, enquanto que a pulsão de morte seria a produtora de novos começos, verdadeira potência criadora". Perguntar o porquê da necessidade de trabalhar diretamente com o corpo e, caberá aqui explicitar.

Através desta citação, compreende-se que em um determinado momento psíquico, a pulsão de vida torna-se pulsão de morte e a pulsão de morte torna-se pulsão de vida. Apesar da dualidade dos elementos permanecer a mesma, a "idéia-conceito" se reestrutura: a pulsão de morte passa a ser o elemento propulsor da criatividade, do novo, do inusitado.

Estendendo um pouco mais esta reflexão, podemos pensar que a pulsão de morte, em sua característica dinâmica disjuntiva, rompe para poder criar o novo. Porém, penso que se não houvesse o imediato acompanhamento da pulsão de vida, este novo se perderia no espaço psíquico inconsciente, sem conseguir ultrapassar a barreira corporal para a concretização do novo na cultura, na sociedade.

Talvez pudessemos levantar a hipótese de que, no momento da criação do novo - um fragmento de momento mínimo - pulsão de vida e de morte atuassem simultaneamente, fazendo da conjunção-disjunção um movimento dinâmico sincronizado. Este movimento único permitiria, então, a permanência e o desenvolvimento do novo. Juntas neste instante psíquico, formariam uma "pulsão de transformação". Penso que é a este momento que o espaço terapêutico Ramain-Thiers se abre.

 

BIBLIOGRAFIA

 

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 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1
 

ASSOUN. P. Metapsicologia Freudiana. Uma Introdução. Rio de Janeiro; Jorde Zahar,  1996.

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FREUD, S. Obras Completas de Sigmund Freud. Argentina; Amorrortu, 1994.

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GARCIA-ROZA, L.A. Introdução à Metapsicologia Freudiana. Rio de Janeiro; Jorge Zahar, 1995.

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LAPLANCHE, J. & PONTALIS, J-B. Vocabulário de Psicanálise. São Paulo; Martins Fontes, 1988.

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NAGERA, H. Conceitos Psicanalíticos básicos da Metapsicologia, conflitos, ansiedade e outros temas. São Paulo; Cultrix, 1970.

6
 

THIERS, Solange. Sócio-Psicomotricidade Ramain-Thiers. Uma leitura emocional, corporal e social. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1995. 

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Freud, S. Complemento metapsicológico à teoria dos sonhos. (1917)

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Freud, S. Análise Terminável e Interminável (1937)